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quarta-feira, 16 de março de 2011

Alguma citações de Dr. Eduardo Sá de seu livro "A vida não se aprende nos livros"

Algumas Citações de Eduardo Sá

É psicólogo clínico, psicanalista e professor de psicologia clínica na Universidade de Coimbra e no Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa. Tem uma longa experiência de acompanhamento de fetos e de bebés, de crianças, de adolescentes e das suas famílias. Director da Clínica Bebés & Crescidos


As emoções tornam tão irrepetível tudo o que vivemos que, depois de vividos, todos os acontecimentos... «já eram». Isto é, por mais que os tentemos descrever, deixam de ser, exactamente, como os vivemos e, por isso, tornam-se... mentira


O silêncio só é silêncio quando não somos capazes de escutar com o coração


A melhor forma de não perder nada não é guardar: mas compartilhar


As pessoas morrem quando nos decepcionam e, para nossa perplexidade, com elas morre sempre um bocadinho, mais ou menos indecifrável, dentro de nós


Os mais velhos só aprendem quando aceitam que, para educar os outros, é necessário, em primeiro lugar, querer aprender com eles. E isso só é possível quando, nas intenções da educação, a aquisição de conhecimentos for substituída pelo carinho à sabedoria.


Amar é conhecer mais do outro do que ele sabe de si próprio, e descobrir que ele conhece mais de nós do que nós mesmos.


Crescemos imaginando que é possível aprender sem errar. No amor, por maioria de exigência. O que transforma, muitas vezes, o coração numa folha de cálculo. Ora, do mesmo modo que dar à luz não é tirar todas as dúvidas (mas pôr problemas), errar é aprender. E descobrir que, olhando por quem se olha, o importante nunca é saber como se faz, mas com quem se conta para chegar ao que se quer.


É certo que quase nada vale por aquilo que parece. E, no entanto, talvez o que pareça valha sobre o quase-nada que lhe falta para ser tudo aquilo que não é.


Transformar em qualquer coisa de sobrenatural tudo o que sentimos, só porque a racionalidade assim obriga, faz do silêncio uma enorme enciclopédia de todas as verdades por dizer.

Há muita diferença grande entre temer a morte e amar a vida. Temer a morte deixa-nos em dívida com a vida. Torna-nos minúsculos. Compenenetrados dos nossos papéis. Falsos e complicados. (...) Temer a morte deixa-nos levar pelas marés de todos os dias. Amar a vida desafia para as aproveitarmos nas rotas onde nos queremos ao leme


Às vezes, os políticos parecem repartir-se entre os que nunca se enganam e os que só reconhecem os erros dos outros. Os que se salvam imaginam a coerência como um lugar sem contradições. Ora, passamos bem sem os que nos indicam, uma a uma, as faltas dos outros. Perdoamos os erros, porque todos sabemos que são eles que nos ajudam a crescer.


Estranhos não são as pessoas que não se conhecem: estranhos são aqueles que, estando ao pé de nós, parecem nunca perceber o que se passa connosco.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O dizer do Psicanalista

O dizer do psicanalista, sustenta Nasio, não carrega consigo o propósito de decifrar o inconsciente, mas de produzi-lo sob a forma de acontecimento, relançando a cadeia dos significantes e favorecendo que outros acontecimentos se realizem.
A melhor interpretação se diz sempre em duas ou três palavras bem curtas, à maneira de uma réplica que toca, corta e pontua o enunciado do analisando.
Winnicott foi um reformador liberal da assim chamada técnica psicanalítica clássica e desconstruirá o estilo interpretativo conduzindo-o ao extremo da simplicidade e da discrição, dando-lhe aos poucos a forma de um dito espirituoso, de uma piada, de uma interjeição ou, como preferia dizer, de um rabisco(squiggle).
O espaço transicional, o entre-dois onde coabitam ilusão e verdade, adquirirá uma importância decisiva na eficácia clínica no tratamento psicanalítico. Em 1971 Winnicott afirma que a psicanálise acontece na sobreposição das zonas de brinquedo do paciente e do analista. Analista e paciente brincam no interior do campo transicional quando conseguem conjuntamente cria-lo e usá-lo.
A ilusão do paciente deverá ser necessáriamente aceito, creditada e compartilhada ficcionalmente pelo analista; esta é uma condição sine qua non que o analisando lhe impõe para deixa-lo participar da sua intimidade subjetiva e nestas condições dar-se-a o diálogo transicional.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A Horda Selvagem(Recorte do Livro "A família em desordem" de Elisabeth Roudinesco

Em uma época primitiva, conta Freud adotando o estilo de Darwin, os homens viveram no seio de pequenas hordas, todas submissas ao poder despótico de um macho que se apropriava das fêmeas. Certo dia, os filhos da tribo, numa rebelião contra o pai, puseram fim ao reinado da horda selvagem. Num ato de violência coletiva, depois do assassinato, sentiram-se arrependidos, renegaram seu crime e inventaram uma nova ordem social ao instaurarem simultaneamente a exogamia, o interdito do incesto e o totemismo. Foi este o alicerce lendário comum a todas as religiões, e sobretudo do moneteísmo.
Nessa perspectiva, o complexo de Édipo, segundo Freud, não é senão a expressão dos dois desejos recalcados - desejo de incesto, desejo de matar o pai contidos nos dois tabus próprios do totemismo: interdito do incesto, interdito de matar o pai-totem. O complexo é portanto universal, uma vez que é a tradução psíquica dos dois grandes interditos fundadores da sociedade humana.
Mais além do complexo, Freud propõe, como totem e tabu, uma teoria do poder centrada em três imperativos: necessidade de um ato fundador(o crime), necessidade da lei(a punição), necessidade da renúncia ao despotismo da tirania patriárquica encarnada pelo pai da horda selvagem.
O homem freudiano para ser civilizado e satisfazer a mulher, deve controlar a sexualidade selvagem que herdou do pai da horda, e rejeitar a poligamia, o incesto, o estupro. Deve aceitar o declínio de seu antigo poder.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

TRAUMA

Ferenczi nos ensina  que o trauma acontece quando a linguagem da paixão, usada por um adulto enlouquecido de fúria ou sexualidade, em quem a criança confia, violenta a linguagem da ternura, do amor e da confiança que a criança deposita naquele seu cuidador. A criança busca então um segundo adulto para relatar o maltrato acontecido, e é nessa hora que o trauma se concretiza, pois esse segundo adulto mesmo sabendo que a criança está dizendo a verdade, a confunde afirmando que não aconteceu nada, que ela entendeu mal. A criança fica então sem ter em quem confiar, nem nela mesma, pois sua percepção também foi atacada.
A criança necessita de alguém em quem possa contar a sua dor, ser ouvido e verdadeiramente compreendido.

Os pacientes de hoje apresentam-se bem mais desorganizados psiquicamente que os neuróticos de antigamente. Nossos pacientes são traumatizados pelas inúmeras e variadas formas de desamparo e abandono que a sociedade atual vem impondo.
A relação real com a pessoa do analista é que fornece um ambiente facilitador e acolhedor para que o frágil ego infantil dentro da pessoa do paciente possa florescer.
No restrito ambiente do setting, cabe ao analista adaptar-se ao paciente, levando em conta que tanto o ambiente como o setting psicanalítico pode ser facilitador da estruturação do psiquismo ou atuar como desorganizador da mesma.
Segundo Ferenczi:
Trauma: Fruto de conflitos reais com o mundo externo.
Trauma sexual: Protótipo da violência contra um ego imaturo.

Violência Moral: Rigor inadequado da educação como acionadores da "Confusão de línguas entre adultos e crianças".
A violência fica adscrita à pulsão, a violência é o exercício da força para subjugar a outro e, inclusive, matá-lo. As armas substituem a força muscular e a morte do inimigo satisfaz uma inclinação pulsional. A violência é quebrantada pela união sempre em termos pulsionais, e o direito é o poder de uma comunidade.
A violência de um indivíduo e a violência de uma comunidade, sendo que uma comunidade pode se proteger da violência estabelecendo laços especiais.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A Justiça Falha por Tardar!!!

A Justiça Falha por Tardar


Rodrigo Angélico Pacheco, advogado.

Quem já não ouviu esse jargão 'A Justiça tarda mas não falha'? Se formos pensar melhor, isso é uma grande inversão. A justiça falha justamente por tardar. O que adianta o alívio ou a recompensa na justiça, quando o dano se tornou irreparável pelo tempo? A verdade é que a sociedade como um todo está infelizmente montada numa estrutura invertida e patológica e o Direito não é nenhuma exceção.



De maneira que precisamos todos, operadores do Direito: advogados, juízes, procuradores, promotores, etc., ter em mente alguns pontos fundamentais sobre a ciência da psico-sóciopatologia, desenvolvida por Norberto Keppe, para produzirmos uma justiça de qualidade.



Estou convencido de que, quando se aplica uma norma ao fato em concreto, se não tivermos conhecimento dos aspectos básicos da patologia, tais como a megalomania, inversão, intolerância, e a paranóia, ao invés de aplicar sabedoria, buscar a verdade, ou justiça, estaremos fazendo do processo um meio de "identificação projetiva", ou seja, estaremos projetando nas circunstâncias processuais os nossos problemas inconscientes. Em outras palavras, é trazer para dentro do processo, além dos fatos, todo o universo interior patológico das emoções que contaminam e deturpam a verdade.



Em minha militância como advogado, percebo claramente que algumas vezes o processo é, de um lado, o trabalho do advogado em atender os interesses de seu cliente (será que todos esses interesses são sempre de fato legítimos?) e, de outro lado, o do juiz, que muitas vezes demonstra claramente seu desinteresse pelo processo. Esse desinteresse demonstra, não raro, a resistência psicológica por parte de juízes em lidar com o reflexo de suas problemáticas internas dentro do processo.



A seguir transcrevo um relato de uma colega de trabalho, Dra Flávia, que ilustra com clareza um aspecto patológico, nesse caso, dos juízes:



“A lei prevê a igualdade entre juízes e advogados, bem como o direito destes últimos serem recebidos por aqueles. Entretanto, tenho percebido que nos últimos anos é enorme a dificuldade de acesso à maioria dos gabinetes dos juízes de Primeira Instância, para despachar petições ou mesmo expor algum fato novo que precisa de maior atenção.”



Não é difícil o leitor perceber que a atitude de alguns juízes, é de se isolar, confundindo claramente sua pessoa com o cargo que ocupam. Acredito que o narcisismo de alguns indivíduos, ou seja, viver voltado às suas próprias ideias, em vez de se concentrar no mundo externo e real, torna ainda mais difícil a tarefa.



“Não existe nada mais antiético do que permitir que as emoções vaguem à solta, pois se trata da substituição da realidade pelo mundo alienado dos sentimentos ruins.” (A Libertação da Vontade pag 120. Norberto Keppe - Editora Proton).



Tudo que fazemos espelha aquilo que somos, pensamos e sentimos, por isso, a necessidade, de uma psique equilibrada, para que o processo como um todo cumpra a sua função de justiça.